terça-feira, 30 de novembro de 2010

A última microficção

Antes que o ataque cardíaco lhe pusesse fim à existência, o escritor ainda conseguiu terminar a palavra e pôr o ponto final. Valeu-lhe o texto ser curto, para não deixar a vida a meio de um acto.
Vantagens da microficção.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Far-west

Começou por ver passar um índio ululante, de machado em punho. Depois, um trio de cowboys aos tiros. Mais adiante, um pequeno pueblo chicano, com a mãe igreja a zelar pelos filhos de adobe. Por fim, um comboio a vapor, com um macaco aos comandos e, nas carruagens de trás, damas saltitantes tentando segurar os chapéus floridos.
Era a alucinação mais a oeste que as drogas lhe tinham provocado.

A saca do pão

Todos os dias a dona de casa deixava pendurada à porta do pequeno apartamento a saca de pano bordada para os papo-secos. Preso à saca com um alfinete enferrujado (que servira outrora para as fraldas dos miúdos), um bilhete com o número de pães desejados.
Numa manhã de Maio, para além dos cinco pães do dia, a dona de casa tinha cinco rosas na saca.
E, descobrindo-se ainda desejada, corou.

domingo, 28 de novembro de 2010

Fu Manchu

Recebeu um convite para uma festa debochada e decidiu vestir-se de Fu Manchu, figura perversa mas magnética.
Ignorou as piadas à trança falsa, ao finíssimo bigode e às longas mangas de seda onde escondia os braços. Não conseguiu evitar o monumental arraial de pancada que dois latagões lhe aplicaram numa rua mal iluminada, por não ter conseguido libertar os braços a tempo.
Deitado na calçada, com as costelas e o ânimo quebrados, deixou escapar um desabafo: Já ninguém respeita um mestre do mal!...

A dica gastronómica do dia

Para a ceia do Réveillon, o chefe Sá Pessoa, ex-toxicodependente, recomenda vol-au-vent de maconha, empadão de ópio e flan de heroína com calda de limão.

sábado, 27 de novembro de 2010

Trespassa-se

Don Juan de meia-tigela.
Ass. Um marido traído.

Convite com sangue no bico

Convidou o amigo que o traíra com a mulher para o acompanhar ao evento onde mais impunemente o poderia apunhalar (pois nem o sangue nem o autor dos golpes seriam descortináveis): um encontro de Pais Natais.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Os dois sentidos do tempo

A velhota de 82 anos conduzira, durante mais de 50 quilómetros de auto-estrada, o seu Fiat 600 em contramão. Interceptada pela polícia, confessou que se dirigia em direcção à infância. E lamentou ter sido parada exactamente quando passava pelo lugar onde, cachopa inocente ainda, dera o primeiro beijo à saída do ensaio de música.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

National Geographic

Tufão de tromboses passa ao largo de cara de homem adulto. Perde força durante o trajecto mas provoca ainda, à sua passagem, consideráveis estragos em lares de terceira idade.

Manadas de gnus

Sem coragem para se suicidar com um só gesto, decidiu perder a vida a pouco e pouco. Para o efeito, passou a fazer as saídas de metro em contramão.
Começou com uma simples costela partida, mas graças à persistente acção das massas anónimas, não tardou a levar a bom termo os seus intentos.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Boletim rodoviário

Transformados em coletes para peregrinos, 20 blazers do apresentador Manuel Luís Goucha provocaram uma série de graves choques em cadeia, ao encandearem vários condutores.

A ordem natural das coisas

Na luta pelo controlo do pó branco que enegrece as almas, vira a mulher ficar paralítica. Como resposta, mandou espancar o filho único do seu rival, que não sobreviveu à agressão. Sabia que a vingança era certa e que, na pessoa de um próximo, o iria atingir em pleno coração.
Ao matarem-lhe a filha mais nova, mataram-lhe o desamor próprio. Apresentou-se então aos seus inimigos, desarmado e disposto a perdoar. Mas estes desconfiaram de uma atitude tão contrária à lógica do ódio. E desde o Antigo Testamento que se sabe o que acontece a quem ousa alterar a ordem natural das coisas.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Pequeno amuo

Porra! Morre a tartaruga da Sabrina de Quintãs, que estuda na Escola Profissional de Aveiro, e ninguém me diz nada?

domingo, 21 de novembro de 2010

Anúncio de montra

Seja Uzi, Browning ou AK, encomende já aqui a metralhadora que deseja oferecer pelo Natal.

Saguão

Ao escrever, não gostava de janelas com vista. Só aquele saguão escuro e triste o projectava devidamente para os campos férteis da sua imaginação.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Placa

No portão da entrada, a família pacifista colocou a seguinte placa: Cuidado com o hamster.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O último beijo

Internados em camas vizinhas, os velhotes olham-se com ternura e, estendendo os braços com o resto das forças, encostam as dentaduras uma última vez.

Mensagem de Ano Novo

Tinha-se divorciado um pouco do mundo, é certo, mas não era razão para não ter ainda recebido qualquer mensagem, a 3 horas do fim do ano.
Já começava a desesperar quando, a 20 minutos da meia-noite, ouviu o toque anunciando a primeira mensagem. Abriu-a e sorriu. Com o coração reconfortado, pensou: A Optimus nunca falha.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Notícia económica

A PT alienou a sua participação na Vivo, em troca de importantes contrapartidas: 3 lojas de moda Susana Gateira, uma pensão abandonada em Arco de Baúlhe, um carregamento de cereal e 350 doses de arroz de polvo.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Vende-se (IV)

Bandeira luso-francesa para binacionais. Concepção e design franceses. Costura portuguesa.

domingo, 14 de novembro de 2010

Apelo

Agradece-se ao proprietário da viatura de matrícula PE-56-44 o favor de comparecer junto da mesma, com vista à sua remoção. O referido veículo encontra-se a impedir a passagem das forças da revolução.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Vende-se (III)

Memórias do próprio nascimento. Cristalinas.

Trabalho infantil

Nas colecções de cromos, os pais entram com o capital e os filhos com a mão-de-obra.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Os funcionários

Os funcionários trabalhavam num open space do primeiro andar da empresa pública. Veio um vento forte - próprio da estação - e levou-os pelos ares. Depois de voltearem como folhas secas, foram cair suavemente aos pés dos membros do Conselho de Administração que entravam no edifício. Logo se desfizeram em desculpas e salamaleques, limpando com a língua os sapatos do Presidente.
Dois funcionários menos experientes tomaram uma trajectória mais pesada e caprichosa. Para evitarem uma aterragem forçada aos pés da junta directiva (que se poderia revelar desastrosa para as suas ambições profissionais), lançaram-se para cima da empregada da limpeza que lavava as escadas, esmagando-a logo ali.

Anticonceptivo feminino

Dona Arlete de cócoras, com uma cebola descascada numa mão, um cano de aspirador na outra mão e uma dúzia de rissóis a fritar.

domingo, 7 de novembro de 2010

Vende-se (II)

Camisolas do Benfica. Azuis. Preço de saldo.

TVida

Comia a ver na televisão alguém que comia a ver televisão.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Vende-se (I)

Ideais, a cinco euros a unidade. Seis por vinte euros. Na compra de um ideal revolucionário, oferta de um retrato do Che com boina flower power. Promoção especial: sonhos de igualdade, a dois euros cada.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Greve geral

O gado bovino marcou para amanhã a sua primeira greve geral. Principal reivindicação: melhores condições de abate nos matadouros.

domingo, 31 de outubro de 2010

Encontro (VI)

Pedaço de tafetá deseja conhecer retalho de flanela, para fazer pendant.

O poeta

Faleceu na passada madrugada, aos 87 anos de idade, Álvaro Rocha, um poeta singular. Responsável pela introdução, na década de 70, da poesia notarial no nosso país, era o maior representante vivo da lírica consular portuguesa e um animador regular do círculo de poetas orçamentistas.

sábado, 30 de outubro de 2010

Encontro (V)

Estrumalho carenciado deseja conhecer rede de pesca meiga que o ajude a esquecer desgosto de amor.

Heterónimos

Se Fernando Pessoa vivesse nos dias de hoje, teria como heterónimos o modernista Avelino Ferreira Torres, o existencialista Jorge Jesus e o pantagruélico Fernando Mendes.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Encontro (IV)

Gil é um ganso moderno e sedutor, que gosta de privar com patas atrevidas.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Resgate

Após o resgate do último mineiro chileno, surgiu à superfície, para espanto de todos, uma miudinha de ar triste e cansado. Um jornalista do Daily Mirror logo reconheceu, por debaixo da camada de terra e fuligem, o cabelo loiro da pequena Maddie.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Encontro (III)

Doninha de olhos verdes e corpo de sonho deseja conhecer furão bem estabelecido na vida. Garante discrição.

Naufrágio

Traineira naufraga ao largo da Figueira da Foz. Dois jovens que na altura jogavam à batalha naval foram detidos para interrogatório.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Encontro (II)

Júlio, orangotango jovial, procura fêmea humana para pequeno ou grande projecto.

Luzes fundidas

No cemitério dos anúncios luminosos de Las Vegas, debaixo dos velhos néons de casinos, clubes e capelas, jaz um pirilampo moribundo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Encontro (I)

Rufina, 58 anos, viúva, deseja conhecer homem que não seja biqueiro.

Desilusão

Rapunzel lançou a sua longa trança para o príncipe subir. Mas devido à acentuada oleosidade do cabelo, o belo pretendente não conseguiu escalar. Conclusão: quem se apresentou foi o João Garcia, já com aquele nariz.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Bolas de naftalina

A Camorra napolitana tem o cuidado de colocar testículos de albaneses nos seus contentores repletos de cadáveres de chineses.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Descanso do pessoal

O dia do descanso do pessoal é o dia de compras dos fantasmas.

domingo, 17 de outubro de 2010

Decisões

Gestor de uma grande empresa, tomava decisões de centenas de milhares de euros em poucos segundos. Mas levava tempos infinitos a decidir-se entre um Sumol de laranja e um Sumol de ananás.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O menino Joãozinho de Marte

Havia em Marte um equivalente do menino Joãozinho, o pequeno Gotlik, herói desajeitado das anedotas mais divulgadas no planeta vermelho.
Por todos estimado, Gotlik era a figura mais popular de Marte (a par do piramidal Zweka, líder incontestado da etnia Sprot).
Até ao dia em que a cadela Laika começou a aparecer nas anedotas e foi tornado público que o pequeno herói trabalhava para os russos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Roupa branca

Mesmo sabendo que estavam sob escuta policial, os dois traficantes não resistiam a discutir ao pormenor - embora de forma velada - as entregas consumadas.
Até ao dia em que um se esqueceu da palavra-chave e o outro se esqueceu da escuta:
- Não estou a ver bem... isso foi antes de lá deixares a roupa branca?
- Roupa branca? Mas que roupa branca?
- A coca, pá!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Mineiros

Temendo o fim do estrelato e o regresso à dureza do quotidiano, os mineiros chilenos recusam-se a aparecer.

História de uma desilusão (à base de imagens duvidosas)

Ao vê-la passar, sentia-se um pequeno atleta nepalês a admirar a “máquina” jamaicana da pista central. Mas avançou para ela com a esperança louca da Brigada Ligeira. O olhar gélido que recebeu dissolveu-lhe as ilusões como sal espalhado sobre neve.

sábado, 9 de outubro de 2010

Quase apátrida

Embora desejasse muito ser apátrida, não conseguia. Tentou renunciar à nacionalidade, mas o pedido de renúncia só era aceite após a adopção de outra nacionalidade. Fugiu para o Ártico, para longe de qualquer pátria. Acampou no cimo de um monte, onde nenhum homem havia posto o pé. Três dias depois, começava finalmente a sentir-se livre da sua nacionalidade.
Até que chegaram os exploradores canadianos, que logo lhe perguntaram pela nacionalidade e pela bandeira que se hasteia à chegada.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Dois miúdos à conversa

- O que queres ser quando fores grande?
- Arquétipo. E tu?
- Estereótipo. Dá menos trabalho.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O estranho

Quando lavava a cara de manhã, teve a sensação de que havia mais alguém em casa, embora a mulher já tivesse saído com os miúdos.
A sensação acompanhou-o durante uns dias, até que uma noite foi à cozinha e surpreendeu um estranho a servir-se de água do frigorífico. Perguntou-lhe o que fazia ali, mas o misterioso intruso rapidamente se escapuliu.
Pediu explicações à mulher, que lhe respondeu ser a hospitalidade um dever das gentes de bem. Além disso, aquele estranho não dava trabalho nenhum, pois dormia no quarto sem janelas da antiga empregada e só comia sobras e Nestum com mel (a uns módicos 2 euros a embalagem).
Nos primeiros tempos, sempre que se cruzava com o estranho fazia questão de lhe mostrar má cara. Mas lá acabou por habituar-se àquela nova presença, concluindo mesmo, com satisfação, que lhe permitira libertar-se de penosas tarefas domésticas como a bricolage, a limpeza da loiça e as sessões semanais de sexo conjugal.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Reserve Bank of Zimbabwe

Para não se esquecer de dar pouco valor ao dinheiro, andava sempre com uma nota de cinco dólares zimbabueanos na carteira.

Aquela entidade indefinida (IV)

- Não achas estranho que venham agora defender o que tanto criticaram?
- Deixa estar, que ELES lá sabem o que fazem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Violência doméstica

O Mascarilha gritava “Hi-yo, Silver... away!”, antes de se afastar em direcção ao sol posto. A Té Parrilha grita “Ai, ó Silva... arreei!”, antes de se afastar em direcção ao “posto”.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Bulimia

Entrava numa livraria, escolhia um livro do seu agrado e deglutia-o num par de dentadas. Fazia o mesmo com discos e filmes, até ficar saciado.
Depois, aproveitava a ida a um sarau ou a um programa cultural para vomitar todos os livros, discos e filmes que tinha comido. E, cheio de apetite, abalançava-se a novas comezainas culturais.

Aquela entidade indefinida (III)

- Miguel Veloso, como comenta as recentes críticas de que tem sido alvo?
- É óbvio que para ELES o Miguel Veloso é um incómodo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Mesa

Entrou no café, sentou-se e pediu uma bica.
Olhou para a mesa e viu uma micaia. Depois outra e mais outra ainda. Viu zebras, antílopes e leões. E milhares de gnus atravessando um rio.
Bebeu a bica, deu uma passa no cigarro e expeliu o fumo.
Do fundo da chávena vinha um forte cheiro a capim.
Quando a névoa desapareceu, o poente avermelhado ocupava, perfeito, toda a mesa do café.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Aquela entidade indefinida (II)

- Já sabes que congelaram os aumentos da função pública?
- Já sei, já. ELES não hão-de descansar enquanto não nos matarem à fome.

Na salina

Na salina ao pé da praia, as gaivotas estacionam de forma ordeira. O facto tem uma explicação: durante três anos trabalhou ali como arrumador um drogado escorraçado das avenidas.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Aquela entidade indefinida (I)

- Ó senhor Santos, este carrinho que me vendeu vinha com uma roda estragada.
- Toma lá um igual, que ELES depois mandam outro.

O método dos pequenos passos

O que os livros de história não dizem - mas é verdade - é que aquando de uma passagem por Lisboa, Jean Monnet, o pai da Europa comunitária, arquitectou o seu método ao ver uma velhota que subia as escadas do autocarro carregada de sacos de couves.

domingo, 26 de setembro de 2010

A matança

Convidado para a matança do bolo de noiva, chegou ao quinteiro quando o magarefe dava início à função.
Ao ver aquele homem corpulento e abrutalhado, sentiu um arrepio na espinha. Dois mocetões deitaram as mãos ao bolo, segurando-o pelo pescoço (o andar superior). O magarefe aproximou-se e o par de noivos em miniatura fitou-o com terror. A comprida faca de dois gumes perfurou a massa fofa. O bolo guinchou. O creme pasteleiro escorreu para o alguidar de barro.
Após a chamusca da massa de açúcar, o bolo foi aberto, extirpado das unhas e cabelos do pasteleiro, desmanchado e distribuído ao povo.
A um canto, o magarefe desabafava, enquanto limpava o creme pasteleiro do avental:
- Prefiro a matança do bolo-mármore. É mais limpa.

sábado, 25 de setembro de 2010

Campanha de prevenção rodoviária da GNR

Este ano há a registar um aumento do número de feridos graves, compensado pela diminuição do número de mortos ligeiros.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A gota de água

Aturou-lhe todos os insultos, agressões e bebedeiras. Até ao dia em que ele tentou calçar o passe-partout com a foto da mãezinha.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Dente por dente

Na infância trocam-se cromos. Na velhice trocam-se crostas.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Bombeiro é que não!

Quando lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande, respondia convictamente, agangsteirando o sobrolho:
- Cúmplice.
Cumpriu a vocação. Aos 23 anos era nomeado adjunto.

domingo, 19 de setembro de 2010

Área equivalente a 500 campos de futebol

Desde que os movimentos ecologistas levaram a sua avante, as melhores equipas de futebol são obrigadas a jogar em campos totalmente cobertos por floresta amazónica. Os mais prejudicados são os espectadores, que não logram vislumbrar mais do que fugazes lampejos das jogadas dos seus craques favoritos.

sábado, 18 de setembro de 2010

O atleta de Cristo

João Paulo II percorreu a distância entre Roma e Manila no excelente tempo de 10 horas e 40 minutos, com 20 séries de estiramentos durante o voo. Bento XVI, claramente menos bem preparado, necessitou de 4 horas mais para o mesmo percurso, com um único exercício a bordo: a demolha da placa dentária.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Vigília

A escritora ficava horas acordada à espera de inspiração. Acabou por escrever o romance com base nos delírios nocturnos do marido.

Mandrágora

Quando a arrancaram à terra natal, a emigrante gritou como uma mandrágora.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Estado civil

Uns meses depois de se ter divorciado, morreu-lhe a ex mulher. Quando lhe deram a notícia, incomodou-o menos a perda de alguém por quem já não nutria qualquer afecto do que o desconhecimento do seu novo estado civil: viúvo divorciado, ex divorciado viúvo ou viúvo de ex divorciada?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Miopia

Míope como uma toupeira, nunca se separava dos óculos. Um dia, poisou-os na cómoda para limpar a cabeça. Esqueceu-se de onde os tinha posto e sem eles postos já não os conseguiu encontrar.
Lá ficou, parado, à espera que lhe passasse a miopia.

Tellado de vidro

Ao engravidar do patrão, chegou a pensar que ele viria a desposá-la.
Quando foi abandonada, começou por jurar vingança. Mas cedo percebeu que a culpa era menos daquele homem habituado a pôr e a dispor do que da Corín Tellado.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Colete de fraquezas

Sonhava em usar um colete de guerrilheiro das FARC. Ficou-se por um colete de tarefeiro da FNAC.

Malha larga

O arrastão só levou as carteiras de senhora, deixando ficar aqueles porta-moedas miudinhos.

sábado, 11 de setembro de 2010

Jogos Olímpicos de Meia Estação

Montemor-o-Velho reúne todas as condições para acolher os Jogos Olímpicos. Já possui uma pista olímpica de remo. O resto, os chineses constroem.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Sue Ellen da Mouraria

Pois dar de beber à Dores é o melhor, já dizia a Mariquinhas.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Filho único

Ia todas as semanas ao restaurante chinês. Compreende-se. Queria ser o irmão do meio da família feliz do menu.

Na fábrica de conservas desactivada

Na fábrica de conservas desactivada, a balança ferrugenta marca o peso da ausência. As baratas continuam a sair desconfiadas. Os caixotes de plástico, empilhados com rigor soviético, conservam as conversas das operárias. O riso gordo da encarregada ecoa ainda nos tubos de ar do tecto húmido.
Naquela fábrica de conservas desactivada, onde o tempo interrompeu o progresso para ter onde ir descansar, o silêncio manda mais do que os ratos.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ironia

Cultivava melancias sem pevides e uvas sem grainhas.
Um dia, caiu-lhe um coco na cabeça. Antes de o traumatismo craniano lhe baralhar as ideias, sorriu com a ironia de que é capaz a natureza.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Campanha de reciclagem

Pernas desmembradas, braços cortados, dedos a menos na mão? É no Amputão.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Serial Killer

Solícito, deu-lhe uma mãozinha. Só que não era a dele.

As leis da atracção

Do que mais gostava nas mulheres era das pernas e do traseiro. Nada o atraía mais do que um longo par de pernas e um rabo bem torneado.
Um dia, ao passar diante de uma montra, apaixonou-se por um meio-manequim.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O herói do dia

O ciclista encetou a fuga aos quinze quilómetros de corrida. Leva já mais de cem quilómetros de esforço solitário debaixo do jersey. Por fora, pele bravia de cigano das estradas. Por dentro, pele mimosa de menino de família.
O terreno começa a subir. Pedalada em desequilíbrio controlado. Bocas e garrafas que se abrem ao longo da estrada. E as letras brancas a passarem no asfalto negro.
Perto do final da etapa, o pelotão relança a caça. O herói do dia começa a perder terreno, vítima da carnívora perseguição.
A poucas centenas de metros do fim, raposa acossada com o bafo da matilha na nuca, está prestes a ser alcançado pelo implacável pelotão.
Para o evitar, desvia-se da estrada serpenteante e lança-se sobre a ribanceira, cortando em primeiro lugar a meta do vale aberto, balizada por duas aldeias ensolaradas.
Enquanto plana, vai beijando o ar sob a vaga de aplausos que leva na cabeça.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O teste

Curioso por saber o dia da sua morte, iniciou um teste na internet. Já não o acabou.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Frieza

No âmbito do processo de óbito do NIF 168907588, solicito a V. Exª a comunicação a esta Repartição de Finanças do número de hipoteca do prédio urbano inscrito na matriz sob o artigo 2254.

Argélida

Indiferente ao perigo, o pequeno Ahmed dá de comer às cabras. Com ele moram a avó, os pais, os quatro irmãos e o medo, anichado ao canto da sala, contra o calor da caldeira. Naquela terra de montes magros vivem poucas famílias. Ignoradas de todos, sem telefone para telefonarem a própria morte.
Na cidade grande, o primo de Ahmed vive há semanas fechado num pequeno apartamento, tentando cheirar os sons da Primavera que desponta lá fora.
Na noite em que os fiéis com punhais vêm limpar os pés à sua porta, as gentes do lugar de Ahmed passam, em golpes de silêncio, de adormecidos a adormatados.
O pequeno Ahmed foi degolado como um frango de aviário.
Na cidade grande, o primo tenta cheirar os sons da Primavera que desponta lá fora.

domingo, 29 de agosto de 2010

100 mil milhões de galáxias

Esmagou a migalha entre os mindinhos, partindo-a exactamente em 20 pedacinhos. Gostava de dominar as mais ínfimas incidências do seu pequeno mundo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ataque de sorriso

Era uma velha muito poupada em sentimentos, que não ria há anos. Quando o resquício de alegria lhe aflorou às faces secas, teve o ataque fatal.

Osmose

Sacudindo a cabeça mais do que o costume, o pássaro que poisara na antena de televisão chilreava o último sucesso da MTV.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Conselho aos proprietários

Senhor proprietário, a caleira é a veia femural da sua casa. Previna o AVC do seu imóvel desentupindo a caleira. Lembre-se: caleira entupida é fachada distorcida.

Robôs

Os combates de boxe de robôs, outrora tão populares, estavam a perder público. É que os velhos autómatos, embora vertessem óleo, não sangravam.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Onda de crimes

O seu bairro estava a ser alvo de uma preocupante onda de crimes. A coisa chegou ao ponto de lhe matarem o mesmo cão duas vezes.

Pequeno funcionário

Coleccionava os post-its que tinha utilizado.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Pensando o futuro

- Quando começar a mijar as botas dou um tiro na cabeça.
- Não vais ter discernimento para isso.

sábado, 21 de agosto de 2010

Experiências de química

Passava o dia a agitar líquidos no laboratório. Chegado a casa, ainda tinha vontade de fazer uma tempestade num copo de água.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Xadrez

Perante a multiplicação dos casos de pedofilia no seio da igreja, há quem venha lembrar que até no xadrez os bispos têm por hábito comer aquelas peças pequeninas e inocentes que ninguém se importa muito de sacrificar.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O homem das tavernas

Quando bebia, o homem das tavernas tendia a ficar de tanga, a pintar paredes e a arrastar a mulher pelos cabelos.

Empirismo

Encontrava-me na minha casa da serra, situada a 6 quilómetros da vila de Manteigas, quando, por entre mato serrado, lobriguei o clarão de um relâmpago. Desloquei-me à vila para apalavrar 10 queijos da serra e 6 pares de pantufas ao Cursino, que só me dispensou 4 queijos e 2 pares de pantufas, por ter de satisfazer uma encomenda de um casal de holandeses com posses. Em jeito de retaliação, pontapeei o Cursino nas partes baixas e regressei a casa. Preparava-me para entrar quando me chegaram, em simultâneo, o som do trovão e o som do frémito de dor do Cursino (que por ser um som mais forte era também mais rápido). Comprovei assim, com a ajuda da borrasca, do Cursino e do casal de holandeses, a diferença entre a velocidade da luz e a velocidade do som.
Elvira Moita, Valhelhas

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Catedral

Ao olhar para o pardal que poisava no ramo lá fora, compreendeu que o voo de uma pequena ave pode ser tão admirável como a construção de uma catedral gótica.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O gnomo

Via o gnomo sempre que saía à rua: na biblioteca pública, entre dois corredores do supermercado, na praia a fazer nudismo…
Tentou o psicólogo, a terapia ocupacional e os comprimidos. Em vão.
Quando o gnomo lhe entrou em casa, desistiu dos tratamentos e comprou uma cama de criança.

Conversa muda em restaurante deserto

Ele - ...
Ela - ...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Raposa

Na esquina, o olhar sujo saboreia a figura da rapariga que pára a meio da rua escura para subir a meia de vidro da perna torneada.
O ataque é brusco. À luta abafada segue-se um momento de silêncio. Ao longe, um anémico ganir de cães.
Ao sair do beco cego, a rapariga lança um olhar vago ao empedrado e sacode o casaco de pele de raposa. Parte apressada.
Do corpo-picanha desprendem-se pêlos de raposa com fragrância de “Channel”.

Pés

- Ó pai, porque é que os homens que pedem dinheiro não têm pés e porque é que pedem dinheiro se não têm pés para irem até às lojas?
- …

sábado, 14 de agosto de 2010

O assassino sentimental

Preparava-se para premir o gatilho, quando ouviu no rádio o som da harpa de um menino-prodígio.
Poupou então a vida a quem o viria a matar mais tarde.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Telejornal

Boa noite, senhores telespectadores. Dois matutinos avançavam esta manhã a informação de que o mundo iria acabar hoje às 23 horas e 12 minutos, hora portuguesa, logo após o apito final do derby lisboeta entre Benfica e Sporting. Aguardamos a todo o momento confirmação da notícia e contamos dar-vos mais pormenores até ao fecho desta emissão. Quanto ao jogo, será marcado pela ausência de Cardozo, o melhor marcador da liga portuguesa na época passada.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A musa

O escritor medianamente consagrado vivia com uma musa que o inspirava de facto, mas só à base de lagosta e roupa de marca.
Para travar as despesas, o escritor decidiu empregá-la como sopeira.
Passou a escrever mal, é certo, mas não trocava nada por aquela sopinha.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Provérbio azeri

Plov da bog yani özuna matit zog tamt.
(O gato que se julga cão persegue sempre a própria cauda).

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Papa

Jão tem cuié. Jão qué papa. Papá cómi papa. Jão tem faca. Jão cómi papa. Papá cómi méda.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Ilha-prisão

Perguntaram-lhe que livro gostaria de levar para uma ilha deserta. Vendo ali ameaça de deportação, passou à clandestinidade.
Mas era só um inquérito de opinião.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A grande Amelia Rodriguez

Embora não soubesse cantar fado (e cantasse mal o resto), a grande Amelia Rodriguez tinha a alma do povo mexicano na voz.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Pausa

Cansado de aquecer planetas e lagartos, o sol deitou-se a descansar à sombra.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Vulcão

Ninguém escuta o vulcão quando ele murmura. É por isso que às vezes levanta a voz.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ambições

Queria ser Presidente do Mundo. Perdeu por 3 votos a eleição para a Associação de Pais do colégio do mais novo.

sábado, 31 de julho de 2010

Paraíso S2

Acordou com o dia a esbofetear-lhe a cara. Levantou-se e esticou as asas, antes de as bater desajeitadamente como um periquito.
Ao pôr o pé na rua, foi levado por um tornado de nível quatro, juntamente com fatias de telhado, janelas, motoretas e gatos. Subiu sem parar, até atingir as nuvens. Naquele lençol antárctico banhado pelo sol estendia-se um mundo com automóveis, supermercados, restaurantes, cabeleireiros… Um mundo nada parecido com o céu - pensou com as suas pregas (pois as vestes dos anjos não têm botões).
Encontrava-se no paraíso S2 do complexo celeste, um éden de socialização de segundo grau, destinado a pessoas de nível médio-baixo: lavradores, mineiros, prostitutas… Mais acima (segundo a hierarquia celeste, inversa à da terra), situava-se o paraíso S1, o dos miseráveis, párias, índios e miúdos de barriga inchada por falta de grão de milho, que acorriam às inúmeras hamburguerias e gelatarias na esperança de desengelharem. A secção abaixo, a S3, destinava-se aos desafogados, ricos e milionários.
Perguntou por Deus a uma costureirinha que saltitava pelos campos celestes, com uma embalagem de “Molico” na mão. Que sim, que já tinha ouvido falar desse tal Senhor, mas que ninguém sabia dizer por onde andaria. Constava que por todo o lado.
Foi um ladrão de auto-rádios com um coração de manteiga (que vendia aos pobres, por 2 euros, os aparelhos roubados) quem finalmente lhO apontou, confessando que Ele de vez em quando se esquecia de estar em todo o lado, o que tornava mais difícil encontrá-Lo.
Seguiu as indicações e lá O encontrou, barba de cinco dias, olho trocista e lábios de arrependimento. Um Graciano Saga banhado pela melíflua luz das escrituras, dando despacho a uma informação de serviço sobre tributação de bens intangíveis, ladeado por Judas, o seu Ministro das Finanças.
Saudou Deus de longe e decidiu dar uma saltada ao paraíso S1, para comer um donut no “McDonalds”. Sentou-se junto duma janela para aproveitar a claridade daquele dia de Inverno. Esfregou as mãos e, com a réstia de hedonismo da antiga existência terrena, entregou-se ao desfrute da sua própria satisfação: - ´Tá-se bem!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O milagre da multiplicação

Jesus pediu aos discípulos que alimentassem com os cinco pães e os dois peixes os mais de cinco mil homens, mulheres e crianças ali presentes.
Os discípulos começaram por hesitar. Mas perante a miraculosa multiplicação, logo começaram a distribuir alegremente à multidão agradecida as resmas de "Panikes" e de conservas “Ramirez”.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Medo cénico

O actor era de tal forma habitado pelas personagens, que só se sentia nervoso quando tinha de voltar à realidade.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Os mecanismos do génio

Perscrutando os mecanismos do génio, o artista mediano concluiu que Cervantes perdera um braço, Camões um olho, Van Gogh uma orelha...
E lá fez "saltar" um dos seus mindinhos.

Permuta (VI)

Galheteiro da cantina da Universidade de Évora permuta com barrete da cozinheira mais antiga da cantina da Universidade de Aveiro.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Princípio da inviolabilidade

Desrespeitando o princípio da inviolabilidade dos locais sonhados nas missões diplomáticas (previsto no artigo 22-A da Convenção de Viena sobre as Relações Diplomáticas), a Polícia de Segurança do Estado tomou de assalto o palácio das mil e uma noites em que o Conselheiro de Embaixada Aniceto Borges se encontrava quando dormia a sesta no seu gabinete.

Permuta (V)

Laje alveolada do novo pavilhão gimno-desportivo da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa permuta com tabela de basquetebol da Escola Superior de Educação de Castelo Branco.

sábado, 24 de julho de 2010

Ornitologia

A asa delta é um pássaro que desistiu - pensava o ornitólogo, ao observar o piloto que se despenhava.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Um segundo

Um segundo não é a mesma coisa para o velocista que termina a corrida e para a avó que inicia a história.

domingo, 18 de julho de 2010

Exercício matinal de ginástica mental

Todos os dias, antes de levar o pão quente à mulher que ficava a rebolar-se na cama como uma morsa, ia ao miradouro imaginar o que fariam naquele dia as pessoas que acabavam de acordar na cidade grande que se estendia ao fundo.

Permuta (IV)

Estudante da faculdade de Economia da Universidade do Porto permuta com 5 euros de imobilizado incorpóreo da Tuna Feminina do ISCIA.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Mais alguns livros de auto-ajuda

- Manual para trair bem a sua mulher e gabar-se melhor disso.
- Dicas infalíveis para manter o mau hálito durante todo o dia.
- Guia prático para fazer hara-kiri logo à primeira.
- 20 lições para afugentar mulheres bonitas.
- Como fazer de um timorato conservador um fanático neonazi.
- Novo método para engordar como um bovino em apenas 5 dias.

Permuta (III)

Caloiro do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa permuta com atrelado de tractor da Escola Superior Agrária de Bragança.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Esconde-esconde

Os dois miúdos brincavam ao esconde-esconde nas dunas, até que um deles se escondeu tão bem que o outro se cansou de o procurar e se foi embora.
Só ao cair da noite é que o miúdo desaparecido, farto de brincar no mar de piratas, sereias e monstros marinhos, decidiu sair do búzio e voltar para casa.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Redução de 50%

De cada vez que era lançado pelos ares na discoteca de província, o anão, embora não admitisse que lhe tirassem o ganha-pão, sentia-se um homem em saldo.

Permuta (II)

Quintanista de Direito da Universidade Nova de Lisboa permuta com cadeirão de braços do Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Uma nova e pequena pessoa

Zé e Maria conheceram-se no princípio do Verão, quando molhavam os pés à beira-mar.
Gostavam de comer peixe fresco. De ver as avionetas rabejando anúncios sobre a praia. De adormecer juntos na rede do palheiro onde ele guardava os apetrechos de vela e um velho frigorífico com cervejas frescas.
Deixaram de se ver com a mesma naturalidade com que se encontraram.
No fim do Verão, Maria começou a ter os primeiros sinais. Fez o teste e teve a certeza.
No início do Verão seguinte, foi à praia com a sua nova e pequena pessoa. Deitou-se para adormecer sob o delicioso lençol do fim da tarde. Um ruído de motor despertou-a. O aeroplano, furando o azul-marinho do céu, surgiu de trás do morro para atravessar a praia. Na faixa ondulante todos puderam ler, entre drapejos de luz: Maria, dá o meu nome à nossa nova e pequena pessoa. Zé.

domingo, 11 de julho de 2010

Permuta (I)

Aluno do segundo ano do ISAG do Porto permuta com empregada de limpeza da Universidade da Beira Interior.

sábado, 10 de julho de 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Diálogo idiomático

- O Vítor disse-me que o teu novo chefe é um osso duro de roer.
- É verdade, está sempre com duas pedras na mão e a pulga atrás da orelha.
- E os teus colegas, mansos como cordeiros, não?
- Claro, têm todos o rabo preso!... Enquanto isso, ele lá vai levando a água ao seu moínho.
- Até ao dia em que der com os burros na água. E o Director Geral, ampara-lhe o jogo?
- Esse? Não ata nem desata, é uma autêntica barata tonta. O outro é que põe e dispõe. Mas no fundo são os dois farinha do mesmo saco.
- E tu sempre a trabalhar como um mouro.
- Pois é, levo uma vida de cão. Mas se não der o litro, adeus minhas encomendas…
- Não podes é continuar calado como um rato. Tens de dar um murro na mesa!
- Aí é que a porca torce o rabo!... Esta semana ainda pensei pôr tudo em pratos limpos, mas decidi engolir mais uns sapos e ver onde param as modas.

(Animais presentes neste diálogo: pulga, cordeiros, burros, barata, cão, rato, porca, sapos)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Ciclo onírico

A avó levou o neto à cama que levou o sono ao olho que levou o corpo ao sonho que levou a mente à luz que levou a graça ao neto que levou a avó à cama.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Jardim-esmola

Com a crise, cada vez mais yuppies inscreviam os filhos naquele prestigiado colégio onde se aprendia a viver de subvenções públicas.
Em frente, numa escola pequena e degradada, ciganitos, pequenos imigrantes e filhos de desempregados aprendiam a pedir esmola.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O coleccionador

Desde que em miúdo começara a coleccionar cromos e caricas que nunca mais parara.
Depois de ter coleccionado tudo o que era possível, decidiu abalançar-se a uma das colecções mais difíceis: a de órgãos humanos inúteis. Com o entusiasmo de sempre, começou a coleccionar apêndices, dentes do siso, amígdalas, cóccixes, mamilos masculinos, dedos mindinhos dos pés…
Acumulara já um riquíssimo acervo de mindinhos quando um coleccionador experiente, verdadeira autoridade na matéria, lhe lembrou que tais órgãos não contavam, pois serviam para bater nas portas e nas mesas e para encontrar objectos no escuro.
Desiludido, voltou aos cromos e às caricas.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Atentado

Um pequeno guincho antecede a explosão. É a voragem a um mergulho de distância. O nada a apanhar-nos a meio. Desprevenidos. Só com as meias calçadas.
Na cabeça, um intervalo. Nas pupilas, um fino raio de luz. Entre o mundo e o desconhecido, um céu de interrogação. O brevíssimo segundo antes da ausência é um anão que se agiganta. Num átimo, um átomo se torna grande como o medo.
Quando achou por bem, a morte passou e não disse nada.

domingo, 4 de julho de 2010

Testículos descaídos

Tlintlin, a revista dos jovens dos 77 aos 107 anos.

A porta

Isolada no meio do campo, a porta convidava a entrar. Desde que limpasse os pés à entrada, todo o habitante da cidade era bem-vindo àquele prado fresco que se deixava escorregar suavemente até ao ribeiro.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O saco de plástico

Tinha na mão um saco de plástico que lhe fora útil, mas de que já não necessitava.
Olhou para aquele espaço soprado onde cabem todos os objectos e a conveniência do homem e percebeu que o saco de plástico é um objecto omnipresente. Que atrás de cada saco de plástico há uma extensa fila de sacos de plástico à espera de vez. Que até no paraíso mais intocado rola um saco de plástico, despreocupado, como se não fosse nada com ele. Que milhares de pedaços de saco de plástico gravitam à volta da terra, enrodilhando-se nas lentes ópticas dos satélites. Que no dia em que todos os habitantes da terra se passearem com um saco de plástico na mão se terá atingido a democracia total.
Tinha tratado bem aquele saco de plástico. Chegara mesmo a levá-lo a um piquenique, que é onde os sacos de plástico se sentem mais felizes, perante a perspectiva de saírem a esvoaçar, livres e loucos, por entre pinheiros e eucaliptos.
Mas agora queria ver-se livre dele.
Só que cedo percebeu que seria difícil - se não mesmo impossível - fazê-lo desaparecer, pois um saco de plástico, ainda que não o mereça, dura mais do que a vida. Não se gasta, amarrota-se. Não se acaba, delonga-se: incorruptível, indestrutível, mais perene do que o tempo.
Se o levasse com ele para um maciço da Antártida, com ele haveria de voltar. Se o enterrasse, logo uma das alças afloraria à superfície. Se o deixasse a arder, iria retorcer-se de raiva e lançar-lhe um ominoso fumo negro que lhe intoxicaria a alma.
Só teve uma saída: foi pô-lo a dançar ao vento.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Países sem selecção oficial de futebol

Mónaco, São Marino, Vaticano, Nauru, Shangri-La, Oz, País das Maravilhas, País dos Brinquedos.

O alemão

Foi o único a esperar Godot até ao fim, só para lhe poder dizer que um atraso daqueles era inadmissível.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A hora

Naquele país, cada um vivia na hora que mais lhe convinha. Os mais noctívagos, nas duas da manhã. Os mais madrugadores nas dez da manhã (para eles o pico do dia). Os mais ociosos nas cinco da tarde.
Até que veio um ditador e impôs a mesma hora para todos.
Foi a partir desse dia que o tempo passou a corromper homens e coisas.

domingo, 27 de junho de 2010

Ruptura sentimental

Encantou-se com as suas curvas e o seu ar voluptuoso. Viveu com ela um idílio perfeito, feito de carinho e de respeito mútuo.
Até que veio a falta de diálogo. Farto dos silêncios longos, decidiu então acabar tudo com a sua boneca insuflável.

Rotas migratórias

O bando dirigia-se para o Norte de África. A cria rebelde foi parar ao Fundão.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Contrariador

Deitava água na fogueira e punha achas na fervura.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Cavaleiro Templário nas mãos da Santa Inquisição

- Está bem, se não me apertarem mais os testículos confesso que fui eu que pintei os bigodes à Santa Maria!...

Provérbio uzbeque

Enquanto o camelo amachuca a bossa ao passar pelo buraco da agulha, o rico não amarrota a cartola ao entrar no Reino dos Céus.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A fala

Começou por ser “diseuse” de poesia, mas achou a declamação demasiado lenta. Experimentou a leitura de escrituras notariais, mas continuou a querer ler mais depressa. Empregou-se como locutora de “lagartixas” de rádio - chegando a dizer as condições de um leasing automóvel em 2,7 segundos - mas nem assim se deu por satisfeita.
Cansada de falar, fez voto de silêncio e ingressou num mosteiro.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Asilo

No asilo para gente sã estavam internados gestores, matemáticos, mediadores, líderes de opinião…
Dois psicopatas guardavam a ala dos escorreitos mais perigosos.

sábado, 19 de junho de 2010

Namoro de beira-rio

Ao longo da margem, era o homem que corria à velocidade do barco ou o barco que navegava à velocidade do homem?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Contraste visual

Destacando-se entre as dezenas de convivas integralmente vestidos de branco, o homem da camisa negra estava ali para derramar sangue.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Livre de chineses

Prisioneiro de riquezas minerais, o monge budista tem o Tibete interior ocupado por milhões de colonos chineses. Da sua prisão de anos já conhece os santos à casa. Amigo daquele chão de preso, sem desprezo no coração.
Todos os dias, de manhã cedo, o bonzo benze as plantas dos pés em louvor dos pequenos seres que pisará durante o dia.
Leva a sua leve mente a passear levemente pelo mundo, muito para lá dos escombros do velho mosteiro.
Depois, pelo pequeno quadrado de luz, espreita os coloridos papagaios de papel que as crianças tibetanas com bochechas de maçã vermelha põem a dançar no céu livre de chineses.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Tudo o que sempre quis saber sobre a visita do Papa

Número zero

Quanto maior é a desgraça, maior parece ser o sorriso do miúdo africano com o número zero nas costas.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sprocht!

Após a chuva de verão
Mais um caracol esmagado
Pelo sapato sem alma

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Caganita de mosca

Pensava no mistério da imensidão do universo quando reparou na caganita de mosca no centro da mesinha de café.

Decisões

Perguntou ao marido o que achava de ela ver outros homens. Mas se ele nunca a ajudara a tomar decisões, também não era agora, em estado de coma, que o iria fazer.

sábado, 12 de junho de 2010

Óleo

O mecânico tentava descobrir a origem das fugas de óleo, mas sem sucesso. Até que, recorrendo mais à emoção do que à mecânica, descobriu que a ambulância vertia óleo sempre que um paciente morria no trajecto para o hospital.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A fama e o proveito

Debaixo do sombrero mexicano está um gringo que aproveita para descansar.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Assédio

Naquela empresa, a única doença sexualmente transmissível era o poder.

Assobio

Assobiava todas as manhãs, para que dele guardassem o assobio.
Era o seu cadáver de estimação, sabendo-se morto de antemão.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Viagra celestial (ou as injustiças do mundo)

Senhor, Pai Santo, Deus eterno e impotente...

Sono paradoxal

O bebé fazia caretas durante o sono paradoxal, assumindo ora a expressão de um pequeno urso panda, ora os trejeitos do senhor Albertino da tabacaria “Cairo”, onde o pai o levava quando ia comprar tabaco.

sábado, 5 de junho de 2010

Espaço vital

De tão devoto, o muçulmano fazia a vida toda no tapetezinho das rezas.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Navegador (quase) solitário

Com 87 dias, 6 horas, 18 minutos e 23 segundos, o neozelandês John Seamon acaba de bater o recorde mundial da circum-navegação na companhia de uma barata.

Texas

Grande campanha promocional: oferta da quinta semana na compra de quatro semanas de vida.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Na sala de espera

O homem espera a consulta. O cacto espera a água. O miúdo espera o doce. A melga espera a oportunidade. A rapariga espera o amor. A formiga espera a colónia. A velha espera a morte.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Prata

Dobrados pela pobreza, os camponeses repovoam a cidade mineira, trazendo ilusões que o vento andino irá levar.
Ernesto sabe que a pouca prata mal dá para comer, mas todas as noites sonha sonhos prateados, à luz da vela do nicho feito de pedras da montanha. Aquela pequena chama, que arde como a luz de presença de um altar, é a esperança débil e poupada que o mineiro vai alimentando, enquanto mergulha o corpo seco na mina voraz.
Até ao dia em que tomba na esteira com os pulmões comidos pelo pó da quimera.
No momento em que desencarna, a sua alma é surpreendida pela luz da vela, revelando-se uma alma mirrada.
Não admira. Apesar de esperançada, vivera demasiado tempo num corpo atarracado.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Teste de história

Em resposta à questão sobre a organização feudal na Idade Média, o autista escreve na última linha, como um robô da primeira geração: Na Idade Média virar à direita.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Celebração

Altivos e satisfeitos, os canibais festejavam como se tivessem o Rui na barriga.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Homem de guarda

Cuidado com o homem - dizia a placa afixada à entrada da caverna dos chacais.

Timidez

O momento de maior intimidade que partilhara com uma rapariga fora a leitura do letreiro de um quadro num museu.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Pudim Molotov-Ribbentrop

Ingredientes: 250 gramas de realpolitik; 1 chávena de mentira; 2 colheres de sopa de rancor; 1 pitada de perfídia.
Misture os ingredientes de forma calculista. Deixe esturricar até ganhar bispo. Sirva bem frio (como a vingança), acompanhado de um mau vodka polaco.

Pudim McLuhan

Ingredientes: 150 gramas de globalização; 2 chávenas de tecnologias de informação e comunicação; 1 colher de sopa de interconectividade; bastante cidadania global.
Misture bem os ingredientes num lap-top, até obter um caldo societal. Tempere com um pouco de utopia. Acompanhe com duas fatias de pão da aldeia (global).

domingo, 23 de maio de 2010

Reparando bem

- Já repararam que os bebés abandonados aparecem sempre bem alimentados?
Ainda nenhum dos presentes tinha reparado. Havia muitas coisas em que só ele reparava: que os cães nunca são atropelados nas passadeiras, que os estacionamentos para deficientes estão sempre vazios, que as tradutoras de linguagem gestual da televisão nunca se enganam, que nas festas dos jardins-escola há sempre mais bebida do que comida…
Um dia, um amigo de longa data atirou, sem mais:
- Já repararam que quando se fala de um homem há sempre outro presente que andou com ele na tropa?
Estremeceu de surpresa. Ainda não tinha reparado.
Desiludido, deixou de reparar.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Na galeria

Na galeria, perante um público ávido de novidades, expunham-se, em carne e osso, imigrantes ilegais, toxicodependentes a ressacar, sem-abrigo embrulhados em papelão e professores cansados.
A exposição foi um enorme sucesso, com os críticos a salientarem a beleza plástica do evento e o seu indiscutível interesse social.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Homo homini lupus

Frequentava o circuito de manutenção para fazer vítimas ao anoitecer.
Acabou vítima de um tarado que frequentava o circuito de manutenção para fazer vítimas ao anoitecer.

Teatro de ponto

No palco, cinco pontos sussurravam o texto uns aos outros.
Mesmo sem nada ouvir, o público assistia entretido ao jogo das bocas que sopravam falas e das orelhas que se esticavam todas para melhor as receber.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A árvorestruz

A árvorestruz tinha ramos, folhas e frutos. Mas de cada vez que se aborrecia, desatava a correr pelos campos fora, perante o olhar invejoso das outras árvores do pomar. Satisfeitos, os miúdos corriam atrás dela, apanhando as maçãs que deixava cair.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Concerto para flauta e orquestra de bicos

Depois das aulas, o garotinho gostava de ir oferecer ao campo os sons da sua flauta de cana.
Assim conheceu o paul os seus dias de maior alegria. Com os pássaros no balcão de ramos e os sapos mais abaixo, na plateia.
Um dia, o miúdo não levou a flauta. Deitou-se debaixo da tília do costume e limitou-se a receber aquele presente simples sem passado.
Foi então que a habitual melodia do pífaro começou a ser chilreada por uma miríade de bicos, num concerto com arranjos de água e acordes de mel.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Suplente de lixo

Uns passos atrás da mulher rica, o cachorro vadio aguarda, com o oportunismo dos desvalidos, o providencial enfarte do canídeo de ostentação.

eBay

Um barbeiro da Leirosa decidiu leiloar em linha o seu rico espólio capilar, com destaque para um tufo do bigode do António Sala (base de licitação: 2 USD e um par de sabrinas) e uma miscelânea capilar dos jogadores Chalana, Pietra e Carlos Manuel (base de licitação: 97 rupias e um açafate de molas).

sexta-feira, 14 de maio de 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O velho anarca

Recusava-se a pagar a taxa de televisão e recompensava o filho pelos castigos na escola.
De resto, um simples burguês com madeixas rebeldes.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Seca

Na vila minguada do Nordeste brasileiro, há pobreza em vez de água. No terreiro da poupada capela, sertanejos de bocas chupadas e olhos sujos despistam a vida. Trazendo na ideia um amazónico rio.
Sonharão à noite pingos de água nos pés de feijão. O feijão que cada escadinha de filhos implora à mãe seca.
Ali, a seca é fome. E a fome é o Brasil perdendo no Maracanã, a cada minuto que passa, uma final da “copa” do mundo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Citius, Altius, Fortius

Na IIª edição dos Jogos Espartanos, que decorreu em 1941 em Dresden, o campeão austríaco Hans Baggerman conquistou duas medalhas de ouro nas provas de lançamento de idoso (sem cajado) e de arremesso de criança poliomielítica.

domingo, 9 de maio de 2010

Facebook

Carminho Brandão Mello acaba de aderir ao grupo "Já tinha idade para ter juízo mas não me apetece".

sábado, 8 de maio de 2010

Existencialismo venezuelano

Só se apercebeu de que não existia quando descobriu que o irmão era filho único.

O sósia

Há 20 anos que tentava imitar na perfeição o cantor Claude François. Sem sucesso.
Foi no momento em que sofreu o choque fatal na banheira que a mulher lhe divisou na face a exacta expressão do ídolo que há tanto tempo procurava.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sem papéis

Mingo não tem papéis. É um simples número que sua. Trabalho infantil de adulto. Negritude guineense caiada por pós e tintas. Castelo firme de braços doloridos.
Gostava de ver na TV o Jerry a vencer o Tom. Mas no trabalho era ao contrário: desenhos desanimados de ratos mortiços dominados por gato omnipotente e gozão.
Quando Mingo caiu do andaime, quem viu fingiu que não viu. O seu corpo-contentor tombou à margem. Vento cortado na visão periférica do capataz, mercador da dor de homens numerados.
Taparam com cimento o buraco com recheio de homem.
No dia seguinte, no exacto local do acidente, brotou do cimento uma pequeníssima flor amarela, prontamente pisada pelas botas rochosas do capataz.

Romeu e Julieta

Ao entrar no quarto do hospital contra a vontade de médicos e enfermeiros, o velhote julgou que a sua amada - colocada horas antes em coma induzido - tinha morrido. Desgostoso, bebeu de um trago a garrafa de bagaço que o compadre Felício lhe oferecera e teve o AVC fatal. Ao acordar, a velhota viu o corpo sem vida do seu bem-amado e contraiu ali mesmo uma bactéria multi-resistente.
E assim termina a história do amor impossível entre dois idosos.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Migrações

Os alces seguem para o Norte. Os gansos, para o Sul. Os emigrantes, para latitudes bem mais interiores.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Partilhas

Saiu do advogado satisfeito por ter conseguido garantir o quinto terço da herança.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Copyright

Com receio de ser plagiado, o pássaro nunca canta tudo o que sabe.

Fronteira de mundos

Na comunidade aborígene, até os cães arrastam diabetes. As doenças como convidados de honra daquele centro de tristeza subsidiada.
Os aborígenes ali estão, à mercê das tempestades de areia que lhes tapam o futuro, lançando-lhes grãos de solo colonizado para os dentes.
À entrada da gruta-matriz por onde os confins do tempo um dia se internaram, Vern Nariva toca didgeridoo, a hélice profunda que eleva o espírito dos aborígenes.
Jimmy, o filho mais novo, sente a pedrada dos fumos. Corpo descerebrado movido a gasolina com chumbo. Mais que maluco, mal louco. Ele e os outros, maçãs com remédio em cela desmemoriada reservada aos viciados em gasolina. Formigas sugadas por urso-formigueiro do seu mundo morno e sábio.
Na fronteira desse mundo com o mundo onde compra a aguardente, Vern Nariva, corpo pintado contra as estatísticas de doença e morte, aponta para o horizonte ébrio do deserto: - Aquele é o meu país.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sinais de agradecimento

A lagartixa deixa a cauda a quem brincar com ela.
O escorpião faz o mesmo com o ferrão.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A Feira do Homem

Famílias inteiras de porcos, vacas, galinhas, coelhos e demais animais domésticos apanham camionetas, tractores e carroças puxadas por atletas para irem à Feira do Homem, onde no último sábado de cada mês se exibem e comercializam os mais variados espécimes humanos.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O ex recluso

De tanto ter visto nascer o sol aos quadradinhos, não conseguia ler livros com vinhetas. E deixava fugir da gaiola todos os pássaros que lhe ofereciam.

A dona de casa

Com a sabrina, o balde e a esfregona, há muito que encerrara a felicidade no armário.

domingo, 25 de abril de 2010

Velho lobo do lar

- Que falta aqui faz um mar!... - diz o velho marujo na casa de repouso, ao ver os olhos marejados de água do companheiro de escarros e solidões.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Hibernação

Durante os meses de vigília, o urso pardo descansa do turbilhão de sonhos.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Com o apoio das tintas Cin

A história em arco-íris tinha como personagens o Capuchinho Vermelho, o Piu-Piu, o Duende Verde, o Naranjito, o Barba Azul, a Madame Min e a Pantera Cor-de-Rosa.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Antropologia

O Masai é alto por saltar muito; o Pigmeu é baixo por se agachar na floresta.
Isto são verdades científicas.

Sobre os corpos

A neve poisava com a delicadeza de um lenço de seda, como se pedisse desculpas pela violência do terramoto.

domingo, 18 de abril de 2010

Design olfactivo

Desenhava cheiros no seu atelier de fragrâncias: a essência a rosas uma elipse, o odor a gerânios uma espiral, o cheiro a morte um círculo fechado…

Conselho para 2012

Não deixem tomates no frigorífico por alturas do fim do mundo, pois podem não conseguir voltar a casa e depois os tomates estragam-se.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Raízes

Quando regada regularmente com café de máquina, a cadeira do funcionário das Finanças tende a ganhar raízes.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

No circo Antónimo

No circo Antónimo, os trapezistas arrastam-se pelo chão, a bala humana regressa ao canhão, a espada engole o faquir, os homens amestrados obedecem ao caniche e o público, ignorando o palhaço pobre, ri só do palhaço rico.

Viagem ao centro da terra

Estacionou o carro junto aos Correios e dirigiu-se ao Café Central.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Paz podre

Satisfeitos com a divisão de tarefas na cozinha, foram adiando o divórcio.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Selviagens

Na aldeia de Haximu, os Ianomamis, marrafas ingénuas sobre olhos virgens de culpa, aconchegam-se na cálida felicidade de se saberem família.
Quando a chacina se dá, dá-se bruta e brusca, relâmpago de etnocídio com brilho de ouro. Os índios são fugitivos sem sapatos, correndo à frente das balas dos garimpeiros como costureirinhas desajeitadas para panelas esturrando ao lume.
Para as autoridades, o desaparecimento sem rasto daqueles animais humanos só poderia dever-se ao costume de eliminarem todos os vestígios dos mortos, calcinando e moendo os ossos para alimento dos parentes.
Mas um índio sobrante, semblante opaco de barro, contou que não fora assim. Contou que os irmãos, ao serem atingidos, tinham ganho asas e caudas coloridas, elevando-se, como os braços suplicantes das árvores amazónicas, daquele solo traiçoeiro.
Aquele velho Ianomami já assistira a mais de uma demarcação dos quatro palmos de terra índia:
- Índio virou passarinho, a gente pega e mata no ar.
E um irmão voador, com penas de tucano, passou-lhe pela vista vendada de tristeza e tabaco.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Tique

Podia ter conhecido novos sítios e pessoas, mas foi adiando essa tarefa, como se pudesse guardar para uma segunda vida todos os lugares, mulheres e amigos por descobrir.
Limitava-se a exercitar, entre duas doses de trabalho, o seu secreto tique caseiro.

Redução de custos

No âmbito da sua política de corte de despesas, a administração da empresa passou a utilizar como escrivaninhas os funcionários que já faziam parte da mobília.

domingo, 11 de abril de 2010

Braços

Morta há meses, a árvore maternal segura ainda os ninhos com os braços.

sábado, 10 de abril de 2010

Verão

Com uma mão trôpega, o mendigo corta as pernas das calças de ganga, anunciando aos transeuntes a chegada do Verão.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Brin-cadeira

Divertidos, os dois brincalhões entretinham-se a observar os efeitos produzidos pelo LSD que deitavam à socapa nos copos dos amigos.
Até que um deles, mais alterado, os matou à cadeirada.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Direitos sociais

Ontem, ao cair da noite, vários milhares de zombies levantaram-se das tumbas e marcharam até ao Terreiro do Paço, em protesto pela violação dos seus direitos sociais. Os mortos-vivos reclamavam a atribuição de pensões de reforma que, segundo os seus representantes sindicais, lhes haviam sido indevidamente retiradas aquando da emissão de certificados de óbito cuja legalidade não reconhecem.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Gordos

O pai forte para a filha obesa:
- Queres mais, minha filha, ou está bem assim?
- Ó pai, sirva-me como se fosse para si!

Acidente de trabalho

Quando a funcionária da caixa passava mais um produto no leitor, o código de barras virou-se a ela e arrancou-lhe a cabeça do polegar.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O balão

O balão do João olhou para baixo e, vendo a bola debaixo do braço do Manel, sentiu-se só.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Americanos

Ele falava-lhe em hebrish. Ela respondia-lhe em spanglish.

Tarzan

Desde que ela decidiu voltar para casa dos pais que ninguém na selva o reconhece. Bebe vinho de palma, fuma liana e envolve-se em lutas com gorilas e leões.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Edital

Torna-se público que a dona Arlete foi alvo de tratamento difamatório por parte da dona Adelaide, que se referiu a ela como “a comandante das putas”.
Para constar se publica este edital e outros de igual teor a afixar nos locais de estilo.

terça-feira, 30 de março de 2010

O pardal

Antes de mergulhar no seu búzio interior, o aluno da janela é atacado por uma última referência à organização feudal na Idade Média. Não lhe apetece aprender para esquecer.
Quer ser pássaro solto, livre debicador de migalhas. Fugir da sua gaiola com um salto de pardal. Salto pequeno mas enorme, porque arbitrário e feliz.
Alheio aos olhos inquisitórios do professor, o aluno da janela abandona a sala de aula sem uma palavra, feliz por dar o salto do pardal, esse pássaro gandulo que cedo fugiu da escola dos animais.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A ilha

A ilha só passa a ser deserta quando o primeiro homem lá põe o pé.

domingo, 28 de março de 2010

Room mate

Alertada por um atroador grito de guerra, a mãe surpreendeu o gaulês Vercingetorix no quarto do filho e expulsou-o de imediato.
Na manhã seguinte, já o pirata Long John Silver se tinha instalado, de armas e paragens, como novo room mate.
Por causa das coisas, o papagaio foi amordaçado.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Os corvos

Todos os dias os corvos aguardam, com olho de paciência, que as donas de casa vão pôr o lixo à rua. Depois voam até ao ponto combinado para transmitirem as informações recolhidas aos respectivos agentes da CIA.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Lar, doce lar

No conforto da cela, os dois Metralhas choram o irmão, perdido nos bancos de uma Faculdade de Direito.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O dilema do pedinte

O pedinte procurou o sábio:
- Mestre, se abano o copo com duas magras moedas para chamar a atenção, julgam que já tenho dinheiro que chegue. Se o não faço, passo despercebido. Que fazer?
- Escuta-me bem… - disse o mestre, alçando uma sobrancelha enigmática - …quem não sabe é como quem não conhece.
O pedinte agradeceu e foi-se embora satisfeito.

terça-feira, 23 de março de 2010

Varizes

Tendo ganho varizes, o Cavaleiro Andante deixou-se ficar numa taberna à beira do caminho.

domingo, 21 de março de 2010

Em 2025

O primeiro cosmonauta indiano e o primeiro cosmonauta chinês encontram-se na lua, o primeiro com um pires de chamuças na mão e o segundo com um falso Casio no pulso.

sábado, 20 de março de 2010

Quem nunca pecou que atire a primeira pedra

Morreu delapidada, pois todos os presentes estavam convencidíssimos de que nunca tinham pecado.

sexta-feira, 19 de março de 2010

No cinema

Ronrona, o espaço uterino da sala de cinema.
No ecrã, há velas de piratas, jardins mouros num mar de areia, o riso verde da bruxa de Oz, um vilão com barba de fósforo, um beijo tapado pelo ombro, um vapor na despedida…
Na sala escura onde as pessoas vão descansar de si próprias, somem-se todas as coisas diárias. E o silêncio do cinema mudo volta a ser o princípio de tudo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Esquadrilha suicida

Antes de atingir o porta-aviões, o kamikaze lembrou-se que tinha deixado a torradeira da base ligada. E, olhando para os lados, constatou que também não podia contar com os colegas para a desligarem.

O tempo dentro de um livro

Pôs a nota de 20 euros dentro do livro e fechou-o.
No ano seguinte, naquela mesma página, em vez da nota estava uma prata de chocolate. Dois anos depois, uma folha de Outono.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ao sol

Sarcástico, o espantalho desejou ao boneco de neve uma longa vida.

terça-feira, 16 de março de 2010

Sentinela

Na paisagem desolada, a árvore solitária vigia cada movimento, sentinela de guarda a um reduto há muito profanado.

segunda-feira, 15 de março de 2010

A idade do frio

Ao envelhecer, o urso pardo começa a procurar as clareiras.

domingo, 14 de março de 2010

Palha

Nunca percebera como é que os actores dos filmes de aventuras, à força de tanto saltitarem por campos e florestas, não apanhavam mais piolhos e carrapatos.

sábado, 13 de março de 2010

Descontinuada

Aquela velhota tinha sido descontinuada.
Era a última que crescera a comer pão de centeio e a rebolar pelas colinas derrubando ovelhas.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Ferida aberta

Ele, resistindo aos avanços dela:
- Não sei, Ana… Acho que ainda é muito cedo.
- Compreendo, Alberto. Foi um golpe muito duro… Mas então quando?
- Mais logo, aí pelas 22.

quarta-feira, 10 de março de 2010

JC/DC

Cabelos compridos, letras revolucionárias, grupos de seguidores inflamados… Só mesmo o filho de Deus para ser o rei da pop da altura.

Um profeta

No início dos tempos, navegava à deriva pelo Mar Morto um profeta com o dom da presciência, capaz de ver o futuro no mais pequeno indício.
Três dias e três noites se escoaram e o profeta nada via que lhe pudesse anunciar o futuro.
Até que avistou um patinho de plástico que flutuava nas águas mansas. E, naquele pequeno objecto colorido, viu as grandes guerras que viriam a dizimar os homens.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Movimento feminista

Foram depositar uma coroa de flores no túmulo da amante anónima do soldado desconhecido.

domingo, 7 de março de 2010

Duas velhas num lar

- Antes queria morrer!
- Descanse, que não fica por cá…

Coerência

Era inevitável: se já fumava e conduzia depressa, então tinha de começar a beber.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Ilha deserta

Perguntaram-lhe que livro levaria para uma ilha deserta. Preferiu nomear a ilha deserta que levaria para um livro.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Trajectória

Todas as noites, para testar a equação da trajectória, o matemático vestia o fato de homem-bala.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Andando no passeio

Tinha por regra nunca passar por detrás de uma pedinte, para não lhe amarrotar as asas ao anjo da guarda.

terça-feira, 2 de março de 2010

Disciplina

A professora mantinha o tigre à porta da sala de aula, pronto para saltar ao primeiro assobio.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O escritor

O escritor debruça-se sobre a folha branca que aguarda a tinta, como um automóvel aguarda o engarrafamento de sexta-feira: de forma perversa, programada. Cansou-se da escrita, quer trocá-la por outra coisa qualquer.
Naquela tarde quente, pintada com a cor das mimosas, decide então ir jogar à bola com os miúdos do bairro.

A vida no corredor da morte

Uma formiga transporta uma migalha de pão. O condenado à morte avista-a e leva-a à boca, fazendo dela a sua última ceia.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Hábito

O leiteiro pôs a saca a tiracolo e saiu para a ronda. - Oxalá - pensou ele - não vá aparecer de novo morto à porta de um cliente, como já vem sendo meu hábito.

Fazendo horas

Passava o vida a fazer horas. Um dia, fez uma hora muito grande, enroscou-se lá dentro e ali se deixou ficar, muito quietinho.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Porra, que já nem na praça estamos a gente seguras!

Ameaçada por um meliante com uma pistola de calibre 22, a peixeira respondeu com um bacalhau de calibre 31/40.

O marciano

Ali para os lados do Ourém, foi capturado vivo um marciano. Os autores da proeza foram dois guardas da GNR acabados de sair do restaurante “O retornado”, que lograram atrair o alienígena alegando que ali se comia “bem e barato”.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A frincha

Pela frincha do pano, o actor espreita o público que já se cansou de aguardar o início da peça. E ali fica, a espreitar pela frincha que o liga ao mundo, até o último espectador partir a resmungar.

Haiku dispiciendo

A folha poisou
Como soem poisar
Todas as folhas

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Romantismo

Mesmo com padre, fotógrafo e bolo de dois andares, não se sentiam unidos para sempre. A vida a dois no apartamento suburbano fora uma vida separada em dois.
Mudaram-se para o farol do tio dela, ninho afastado do mundo onde tiveram dois filhos. Mas nem assim se sentiram um só.
No mar alto, lançaram-se à água de mãos dadas, os peixes como convidados e as algas como alianças.
Ali se tornaram finalmente um só.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A sopa

Era uma vez um homem que gostava muito de sopa mas que, para sua grande infelicidade, não conseguia fazer uma sopa de jeito. Por mais que corrigisse as suas sopas - demasiado grossas ou demasiado aguadas, demasiado salgadas ou demasiado doces -, nunca conseguia dar-lhes aquele gostinho caseiro que uma boa sopa deve ter.
Um belo dia, a avó do homem, uma velha de muitos anos que por ali andava, aproximou-se do panelão. Curiosa como todas as velhas de muitos anos que por aí andam, debruçou-se para espreitar. Escusado será dizer que caiu como uma pedra dentro da sopa. Ploc!
Depois de a passar com a sua varinha mágica especial - fabricada com o melhor aço de Taiwan -, o homem provou a sopa sem grande convicção. Mas mal levou a primeira colher à boca, constatou, para seu grande espanto, que aquela sopa tinha finalmente o tal gostinho caseiro que há tanto tempo almejava.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Versalhes

Quase a perder a vista, o jardineiro real André Le Nôtre contemplava a sua obra a perder de vista, os maravilhosos jardins que tinha projectado para glória do seu soberano e satisfação do seu anseio de harmonia.
Ao fundo, deslizando no grande canal de água, um pato-real olhava em volta e, não vendo ninguém, achava que tudo aquilo tinha sido criado só para ele.
Enquanto isso, à entrada do palácio, os guardas reais corriam a pontapé os primeiros turistas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sem abrigo

O sem abrigo dormia junto das escadas rolantes do metro, num colchão rodeado de restos de comida, garrafas, latas, sacos de plástico e outros objectos recicláveis.
Para as autoridades, o problema não era aquele sem abrigo incomodar as pessoas. O problema era aquele sem abrigo não ser reciclável.

O novo recruta

O Correia cumpria a recruta de orelhas a arder. Sempre com alguém a atazaná-lo ou a distribuir-lhe tarefas de rato de laboratório.
Nos tempos livres, tinha ganho o bizarro hábito de recolher refugo: um saco de ráfia, um pedaço de vassoura, uma velha peça de roupa interior... Questionado sobre o porquê, não quis explicar.
Certa noite, levantou-se e saiu da camarata, iludindo os sentinelas de serviço.
Na manhã seguinte, logo que o sol rendeu a noite, os recrutas foram acordados com os cacifos aos berros. Barba feita e pequeno-almoço na garganta, alinharam para os exercícios de “Base 1”. Peitos de galo em manhã de pele de galinha.
O primeiro a vê-lo foi o Menezes, apontando aos outros, com o queixo, o novo recruta.
Estava ali a explicação para o comportamento do Correia.
A uns trinta metros de distância, do lado esquerdo da formação, o espantalho, em posição de à-vontade, ria-se da tropa toda.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Centro de Ajuda Espiritual da IURD

Querido Pastor Renato,
Em desespero, comi fezes de camaleão e acasalei com um babuíno do circo Hermanos Rodriguez. Poderei curar-me?
Valdemiro Lins, Serranópolis do Iguaçu

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Velha automotora

A velha automotora contava ao filho tudo o que vira: os montes nevados, os vales verdejantes, as vilas engalanadas e, nas estações onde parava para descansar, as notícias apregoadas pelos ardinas e as lágrimas vertidas pelos amantes.

Bloodsucking nazi zombies

Só quando se encontrava sob o peso dos sete palmos de terra é que o fanático de filmes de terror começou a duvidar da existência de mortos-vivos.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Rivalidade musical

Nos anos 60, havia clubes de fãs da Simone de Oliveira e da Madalena Iglésias, da Sylvie Vartan e da Françoise Hardy, da Simone Iglésias e da Madalena de Oliveira, da Sylvie Hardy e da Françoise Vartan, da Simone Hardy e da Madalena Vartan, da Sylvie de Oliveira e da Françoise Iglésias, da Simone Vartan e da Madalena Hardy, da Sylvie Iglésias e da Françoise de Oliveira…

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Bairro de mulata

Plantado no lado batido da cidade, o bairro onde o Tino mora é uma irredutível aldeia gaulesa onde não vigora a lei de Roma.
Filho do bairro, bisneto de África, o Tino torce menos pelo Benfica do que os primos de Angola, não acreditando em pátrias ou amanhãs que cantam.
Tem uma esquina onde se vai recostar no sofá sem molas do pequeno crime para beber o seu concentrado de rua e gemer um rap figadal contra o mundo.
Já tinha assaltado algumas lojas quando resolveu ir três vezes seguidas à mesma missa, uma sedutora casa de doces e licores. Foi apanhado à terceira eucaristia.
Agora, no reformatório, do que mais sente saudades não é da família nem das mulatas de corpo esguio que - como os quivis - cedem ao toque quando maduras, mas das ganzações, gangsterices e grafitanços da sua aldeia gaulesa onde não vigora a lei de Roma.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Os 4 cavaleiros do Apocalipse

O anti-Cristo, a guerra, a fome e a psoríase.

A evolução dos 3 F´s

De Fado, Futebol e Fátima para Fraude, Futebol e Fátima (Lopes).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A caminho da escola

Num saco de lixo preto, levava os cadernos escolares e as mágoas domésticas.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A tournée da nostalgia

Na tournée da nostalgia, as velhas glórias queimavam os últimos cartuchos, tentando em vão incendiar o palco.
A banda era menos de suporte do que de assistência: na guitarra, um reumatologista; nas teclas, um oftalmologista; no baixo, um cardiologista; na bateria, um ortopedista.
À entrada, a organização distribuía ao público andarilhos e arrastadeiras.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Ortodôncia

- Ó pai, os meus colegas gozam com o meu aparelho dentário, principalmente na aula de mordida.
- Deixa lá, filho, que quando fores grande não haverá pescoço que te resista.

A última tentação de Cristo

Uma barrica de ovos moles de Aveiro que lhe fez disparar os níveis de colesterol.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Gene Kelly

O rapaz com paralisia cerebral tenta dominar os inoportunos braços e pernas. Depois de vencer mais uma luta contra os quatro lanços de escadas, alcança o seu doméstico Everest. Senta-se à mesa do computador e arruma o corpo.
Com o dedo mindinho, dá início à conversa electrónica: Sara, quando nos conhecermos, hei-de te ensinar danças de salão. Sou um dançarino imparável…

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Velhos demónios

A velha senhora guardava os velhos demónios numa caixa antiga.
Um dia, ao abrir a caixa à procura de bolachas, o neto deixou escapar os demónios, que se espalharam pela vila.
O leiteiro escorregou, os homens no café insultaram-se com rara violência, o Presidente da Junta matou-se com um tiro de caçadeira e o padre começou a assediar abertamente as criancinhas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

TIR

Para o camionista a milhas da família, era o tempo - e não o espaço - o inimigo que desenrolava a paisagem.

O porco mealheiro

Um misto de avareza e desconfiança levava o gordo a engolir as moedas que queria amealhar.
Quando já tinha mais de mil moedas de um euro no estômago, dirigiu-se ao banco mais próximo para se depositar.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A cartola

No bosque antigo, as testemunhas aguardam. Sórdidas, necrófagas, translúcidas como um sudário.
O desafiado chega de mansinho, colete receoso sobre camisa adoentada.
Os duelistas aproximam-se. Lançam um olho de mira à barriga de charuto do juiz. Retiram as pistolas da caixa barroca. Viram-se e chocam costados. O lenço branco cai no chão. Vinte passos e estacam. Rodam calcantes. Imobilizam-se como conservadores de museu. Apontam armas e disparam.
Atarantado, o juiz sacode o fumo e tomba direitinho como laje de jazigo, o sobretudo agasalhando a queda.
Os dois homens aproximam-se do corpo morto. Dois excelentes tiros: um mesmo abaixo da orelha esquerda e o outro no meio da pança.
Apanham do chão a cartola do defunto. Agradecida!
Arrumado o palco do pequeno evento, os quatro homens afastam-se pelo campo florido, discutindo vinhos e petiscos.
Um deles leva na cabeça a aristocrática cobertura. Mesmo à distância, dá para ver que também ela graceja.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Fuga

Traído pela mulher, deixou tudo e fugiu para África.
Só uma traição assim, gorda e desapiedada, lhe dera asas para escapar a sapatos e gravatas, agendas e semáforos, talheres e televisões.
Agora, com os pés mergulhados no Índico e a cabeça poisada num tijolo cozido ao sol, vai cobiçando os traseiros de melancia que passam. Sem se importar que a chuva lhe caia em cima, como cai em cima dos macacos que não têm medo da chuva.

domingo, 31 de janeiro de 2010

O anjo

O anjo Miguel deu uma nalgada a Cristo, insultou Herodes e roubou a lança a um soldado romano.
O senhor padre Bento proibiu-o de voltar a participar na procissão.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Chihuahuas

Roubava chiuhahuas, que guardava nos bolsos do sobretudo depois de os adormecer com clorofórmio.
Vendia-os mais tarde como acessórios de moda.

A velha senhora

As duas adjuntas do chefe de repartição trabalhavam num gabinete com uma lareira antiga coroada por um quadro a óleo retratando uma velha senhora de vestes escuras e ar carrancudo.
Sem saírem do lugar, as duas adjuntas sabiam de tudo o que se passava na repartição, graças à secreta e preciosa ajuda da velha senhora, que à noite saía do quadro para ir espiar discos duros e papéis jacentes.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Marroquinês

Mal pôs os pés em Marrocos, logo um marroquino o abordou em marroquinês:
- Batatá fritá, sardina, bacalau… bino berde, bino berde! Leva tápete de raça!
Para se ver livre do vendedor, comprou-lhe uns óculos de sol por um preço que considerou razoável.
Até que, ao passar de óculos postos por um cartaz do Avatar, reparou que a cara do Na´vi assumia contornos tridimensionais.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Meta alcoolismo

Bebia para esquecer que era para esquecer que bebia.

Entre aldeias

À força de tanto percorrer os 13 quilómetros que separam a casa onde sempre morou da horta de família na aldeia vizinha, a dona Joaquina Pontes acaba de completar, aos 87 anos de idade, os 384 405 quilómetros que separam a terra da lua.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O paradoxo de Brejnev

O PDG mantinha todas as ambições mas nenhuma das capacidades.
Reunia assim todas as condições para ser reconduzido, com plenos poderes, pelos grandes accionistas.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Lagostins

Era tal a praga de lagostins que atingira os campos de arroz do Baixo Mondego, que sempre que o sol batia nos terrenos alagados as mondadeiras colhiam arroz de marisco.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os pobrezinhos

- Para que servem os pobrezinhos, pai?
- Para nada, filho…
O menino não quis acreditar que os pobrezinhos não servissem para nada. Se não serviam para nada, porque existiam então? Tinham de servir para alguma coisa.
Tanto procurou que descobriu.
Descobriu que os pobrezinhos servem para os ricos poderem praticar a caridade e dar mais valor ao que têm.
Só que não dão.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Meteorologia

Dizia o velho pastor, acariciando o joanete:
- A humidade é que estraga o frio!
E dizia o velho ditador, olhando as nuvens:
- Hoje não está grande tempo para eliminar opositores...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Smarties

Em vez de comer logo os smarties que avó lhe dera, a menina resistiu à tentação e semeou-os.
Depois sentou-se, à espera. E não tardou que as árvores começassem a crescer e que cada árvore desse barras de chocolate - Twixs, Snickers, Kit Kats, Crunchs... - da cor do smartie semeado.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Deserto

Tangeras e tâmaras. Nomes de mistérios. Dunas moldadas pelas mãos do vento. A cabeça de um insecto que visita o dia. Plantas magras vigiando turbantes.
Secretamente, debaixo da areia de séculos, esconde-se uma biblioteca comida pelo tempo. O sol escorrega como mel pela cauda do dia. E a noite espreita, vestida de rendas frias.
O deserto é tudo isso e a unidade de muito mais. É um imenso mar de murmúrios, protegido do ódio dos homens.

Aviso

- Pssst!... Jovem!
- Sim, diga.
- Toma cuidado!... vai começar a Guerra da Curia.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Visitas

Tinha um tapete voador à porta de casa para se ver livre das visitas indesejáveis.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Expo 98

Faltam 322 dias, 11 horas e 20 minutos para a Expo 98. O estudante passeia-se pela esplanada com uma pasta de couro. O velho míope abre os braços num gesto de comício e resmunga para o lado, pedindo um desconto de vida. Fecha os olhos e deixa-se levar pelo tempo, como ave transportada pela brisa da manhã.
Faltam 105 dias, 3 horas e 45 minutos para a Expo 98. O empregado de longa duração procura assegurar com projectos o mínimo de subsistência da alma. Sente-se como uma daquelas pombas amestradas que descrevem sempre as mesmas curvas às mesmas horas e que vão sendo cada vez menos sem que pareçam ser cada vez menos.
Faltam 5 dias, 7 horas e 10 minutos para a Expo 98. O estudante continua a passear-se pela esplanada. Uma pasta de couro ainda leva tempo a gastar.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Chamada telefónica

Ligou o 966600666.
Do lado de lá da linha respondeu-lhe a Besta.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Epitáfio

1927-2010. Trompetista. Aqui jazz.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Vendado

Surpreenderam-no de noite, enquanto dormia. Vendaram-lhe os olhos. Meteram-no num carro e levaram-no.
Após dez longos minutos, chegaram. Tiraram-no do carro e fizeram-no subir umas escadas. Ataram-lhe os pulsos e encostaram-no a uma parede.
Deram a ordem:
- Preparados?... Fogo!
Nesse momento, tiraram-lhe a venda e, por entre gritos de “Surpresa!”, recebeu a chuva de tartes em pleno rosto.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O valor das coisas

Queria sentir o verdadeiro valor das coisas.
Cometeu então um crime de média dimensão, para poder receber na prisão o seu primeiro cabaz de Natal: selos, envelopes, lâminas de barbear, pasta de dentes, esferográficas, café em pó e os indispensáveis cigarritos para as horas de maior aperto.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O menino que não tinha medo de nada

O menino que não tinha medo de nada preocupava os pais, por não ser capaz do sentimento que inspira a cautela.
Um dia, o menino foi ao circo e sentou-se na primeira fila da bancada que ameaçava ruir.
O urso de mota passou-lhe uma razia. Depois outra. À terceira volta, o menino começou a recear a passagem daquele motociclista desembestado que fazia tremer a bancada.
E foi assim que o menino que não tinha medo de nada aprendeu a ter medo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Catálogo de distúrbios psiquiátricos - A síndrome de Cotard-Elias

Sofrera em vida da síndrome de Cotard, um estado de depressão extrema em que acreditava ser um cadáver ambulante.
Depois de morto, passou a acreditar que estava vivo, devendo-se ao doutor Alberto Elias, médico legista nos Hospitais da Universidade de Coimbra, o diagnóstico da nova síndrome.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Calor humano

Era tão carente de calor humano, que pedia ao vendedor da “Reader´s Digest” para lembrar às testemunhas de Jeová que lhe fossem bater à porta.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Catálogo de distúrbios psiquiátricos - A tara de sultão

Depois de localizar raparigas solteiras em fase avançada de gravidez, procurava tornar-se íntimo delas, com o único e firme propósito de reconhecer filhos que não eram dele.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Redacção da 1ª classe - A gula

A gula é muito invejosa. Quando a gente está com a gula, não nos apetece fazer nada.
André Murteira, 6 anos

Castings

Embalado pelo sonho de Hollywood, o marciano deslocou-se à Terra para uma série de castings. Não conseguiu um único papel de extraterrestre.
Ainda tentou participar numa emissão das “Noites Marcianas”, mas o apresentador Carlos Cruz considerou-o “pouco exótico para o programa” (sic).

domingo, 3 de janeiro de 2010

O capuchinho vermelho para yuppies

Era uma vez uma menina que na valência da assistência cívica fixou como tarefa de curto prazo fazer chegar o brunch à avó.
Sem ter feito a devida gestão do risco, decidiu aventurar-se pela floresta, onde um lobo a identificou como potencial mais valia da sua dieta alimentar.
Vendo ali uma janela de oportunidade, o predador convergiu para casa da avó e procedeu eficazmente à respectiva deglutição.
Embora estivesse já a rentabilizar o seu investimento, o lobo tinha como meta estratégica a aquisição hostil da menina e subsequente absorção dos seus activos corpóreos.
Para o efeito, decidiu assumir a identidade da avó, em todas as suas vertentes.
Vendo ali indícios de usurpação de identidade, o capuchinho vermelho seguiu o princípio da precaução, submetendo a putativa ascendente em segundo grau a um inquérito sobre as características intrínsecas dos seus órgãos dos sentidos.
Face à reacção intempestiva do farsante, contratou por telemóvel os serviços de um profissional da cinegética, que logo pôs fim ao ciclo de vida do lobo, de cujo ventre saiu a respeitável idosa, com os sinais vitais ainda activos.
Dali em diante, avó e neta não mais deixaram de se articular no sentido de gerarem sinergias.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Probabilidades

Nem queria acreditar que estivera a comer mesmo ao lado da estrela de cinema. E o mais incrível é que tivera cinquenta por cento de probabilidades de ter um caso com ela: ele queria, ela não.

O cronista matemático

Lançou aos quatro ventos que as cinco quinas correram os sete mares nos quatro cantos do mundo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ano novo, morte nova

Ano novo, aquele convencionado segundo em que tudo muda para igual.
Os adolescentes animam a sua festinha de indecências com violas, camisolas grossas e apalpões benzidos pela cerveja.
Empanturrados de excessos, enfiam os gorros de lã e fazem-se à estrada serpenteante e bordejada de neve, arrastando as mochilas.
O rapaz mais trôpego assinala o pedido de boleia, mas fá-lo movendo o polegar capital ao contrário, de cabeça para baixo.
O condutor lê o polegar, avança em direcção ao muro de protecção e precipita-se no vazio.
A neve decide então assumir um branco sujo, ali a cair para o indecente.